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O Espaço do Vagar - Imbolc ou Candelária

Atualizado: 3 de fev.


O renascer da Terra - micélio a libertar néctar dourado

Estávamos a escrever a newsletter deste mês de Fevereiro para vos enviar quando nos apercebemos da força da palavra cultura e o tanto que vive nela. Não sei se é só porque gostamos de palavras, mas aconchega-nos o facto de sabermos da ancestralidade dos muitos alguéns que geraram palavras, e que, por se sentirem tão bem nesse acto de criação não conseguiram parar de as inventar, mais e mais palavras nasceram para descreverem o mundo que somos.

Mas a palavra cultura tem um sabor especial, pois cultus é a raíz latina que suporta a palavra, e se pensarmos em mais palavras com esta raíz somos tomados pelos actos que teciam todos os povos antes e diante de nós.

Cultura não é só o lado intelectual das artes ou como entitulamos um ministério ou ainda uma secção do jornal de sábado, se bem que sempre podemos cultivar o nosso terreno interior com pedaços que vamos lendo por lá, mas cultura é muito mais do que o lado intelectualizado da civilização.


Cultura é o cultivo de alguma coisa, ao cultivar-se algo estamos a cuidar dele para que cresça enquanto alguma coisa dentro de nós cresce também. Reciprocidade.

Cultura traz cultivo e culto com ela e não haviam sociedades tradicionais que não fizessem deste casamento o seu ritmo diário de vivência. Homenageamos o que nos é sagrado ou divino através de ritos ou celebrações porque sabemos da importância de incluírmos todos no processo de agradecimento e por isso prestávamos culto aos Elementos, à Terra e ao Cosmos.


Cultivamos relações porque sabemos que tudo se interliga e que sem essa harmonia nada florescia. O que liga a cultura é o dar tempo e espaço para um cuidar mútuo, é a conversa que tem tempo para ouvir e tempo para falar.

Daí a necessidade das celebrações, a imposição de tempo para o vagar, o deixar o nós vazio para nos dedicarmos a outro nóses, num processo de fazer as coisas lentamente.


Hoje.

Hoje é dia 2 de Fevereiro, marcado como o dia do Imbolc ou Nossa Senhora da Candelária, a Nossa Senhora da Luz.

Nesta paragem no calendário o tempo pede que cuidemos do nós e do comunitário, é um período de tempo onde o agora é o presente que doamos a quem mais respeitamos, as Senhoras que nos velam. Neste mês os momentos reminescentes do culto à Terra que começa a acordar são mais que muitos, e mostram a vontade que tínhamos de prestar homenagem ao ser mais vivo de todos que esteve a dormitar durante uma estação, para isso tentávamos replicar no exterior o que queremos que fosse sentido no interior, porque nós somos Terra.

O Imbolc é o primeiro na procissão e pede-nos a imersão num descongelamento pessoal, para estarmos preparados para a abundância do aquecimento do solo e nas possibilidades que este traz dentro de nós como indivíduos. É época de vagar espaço para deixarmos novas experiências crescerem e não caírmos no modo desadequado na repetição do mesmo que já fomos. Limpava-se as casas, as ferramentas, davam-se coisas que estivessem a mais e de que já não precisávamos, iamos às fontes sagradas para receber as bençãos e assim começaríamos um novo ciclo.

E o S. Valentim?

Porque estará alinhado com o começo da época de acasalamento dos pássaros e o ressurgimento dos insectos? Será que queremos estar disponíveis para a fertilidade em sincronia com o reino dos alados e da Terra? Quando começamos a olhar à nossa volta vemos a teia em tudo o que nos rodeia, e as novas ideias surgem de outras que estão continuamente a ser criadas à nossa volta. Fazemos parte de um Todo e a cultura não é relativa a um país ou estrato social mas ao ponto em comum que é a Natureza.

E de onde virá esta necessidade de nos vestirmos de forma colorida e espampanante de forma a recriarmos seres que gostaríamos de ser? Será que estamos somente a tenter espelhar a abundância e criatividade da natureza para inspirá-la a vibrar de novo connosco? Um cultivo da Terra de forma diferente, um cultivo que estimula o crescer do outro:


"Anda lá, nós aqui já estamos prontos para começar, olha só a diversidade que somos, lembras-te? ".

Uma comemoração semelhante ao Entrudo acontecia na Festa dedicada a Osiris, o deus do subterrâneo e regeneração dos Egípcios, esta celebração marcava o recuo das águas do Nilo e a possibilidade de se começar a semear nesses terrenos fertilizados pelos minerais deixados pelas águas. As pessoas dançavam fantasiadas ao som de músicas alegres e em vez de confetis atiravam-se sementes ao ar como forma de oferenda a este deus, as primeiras sementeiras estavam lançadas..

Cultura é cuidar e honrar neste modo activo, porque queremos ser participantes no contar da história da Terra, queremos escutar e ser Vida. Este é tempo de vagarmos a mente do exclusivamente intelectual e entrarmos em modo de ritual, porque a nossa primeira mãe, aquela que desejamos imitar como fonte de aprendizagem é a Mãe Terra e ela já está a preparar a nossa chegada.

"Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só a lua revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do sol. Carecemos do nascer da Terra." Mia Couto em Contos do nascer da Terra

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